Haja Paciência


Histórias de ônibus

Essa é uma obra de ficção.
Qualquer semelhança com fato real
é mera coincidência.

Haja Paciência


     A gente sempre ouve aquele bordão da TV: – Pergunta idiota, tolerância zero!!!

     Mas convencionemos uma coisa, pra trabalhar dentro de coletivos urbanos, dar quatro, seis, oito viagens por dia, há de se ter saco de papai Noel pra vencer a jornada e se esforçar para não se lembrar do dia por vir.

     Concordo que, às vezes, não dá tempo de formular uma pergunta antes de abordar um desavisado com uma interpelação mais que objetiva na hora do aperto nosso de toda hora, mas não entendo como, imediatamente após a abordagem, o interpelado responde com um irreverente, sarcástico toma-lá-dá-cá...O riso é irreprimível e totalmente desculpável, apesar de ser inconveniente, tal situação o perdoa.

     Por exemplo: Uma situação que acontece todos os dias nas grandes cidades onde o transporte público é praticamente uma cópia, de cidade em cidade, ônibus cheios e viagens apertadas. Pessoas disputando espaços nos corredores que parecem ser os famosos “corredor polonês” onde você paga pra entrar e reza pra sair o mais rápido possível. Isso tudo sem lembrar a coreografia imposta obrigatoriamente aos ocupantes das naves transportadoras das massas operárias do país pelas curvas e solavancos sofridos durante o trajeto. Voltemos à história... A senhorita entra no coletivo, entre empurrões e cotoveladas consegue vencer os metros rasos entre a porta de entrada e a roleta onde o indivíduo uniformizado que recebe notas e devolve moedas fica prostrado. Isso mesmo, prostrado, sempre sem postura alguma, com uma melancolia nos olhos que dá pena.

     Pois bem, a distinta senhorita chega, acomoda-se na roleta como no sofá da ante-sala de um escritório de advocacia e, irritantemente, abre a bolsa, vasculha-a ligeiramente para encontrar a sua nécessaire, abre a dita e encontra um simpático porta-níqueis, aí vem a dramática pergunta, a interpelação ao trocador, o motivo do escárnio público; olhos nos olhos do sofredor, (nem cito “sofredor” como se fosse torcedor do Atlético Mineiro) ar sério, uma multidão estacionada na retaguarda da senhorita esperando a vez de passar pelo cobrador, ela diz:

     – Quanto custa o ônibus, moço?

     Ele do alto da cadeira – sempre altas – fecha a gaveta, olha o carro de alto a baixo, olha o fundo e o retrovisor interno, suspira e responde pacientemente:

     – Uns 65 ou 70 mil, o carro tá meia boca, deve rodar uns anos ainda..

Por: Paulo Siuves

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