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Mostrando postagens com o rótulo Crônicas

Dança na Última Caçambada

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Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fato real é mera coincidência. Carlos Drummond de Andrade, com aquele seu olhar atento para o banal que vira poesia, já relatou a infinidade de pernas dentro de um bonde — e a variedade delas, refletindo sobre quantas histórias cabem num espaço tão pequeno. “Para que tanta perna, meu Deus?” é o verso dele, lá no Poema de Sete Faces, que sempre me vem à cabeça quando entro num coletivo urbano. A gente raramente se dá conta do drama silencioso da pessoa sentada ao nosso lado. E também há o bordão que circula pelos cobradores: “Tudo é passageiro, menos o cobrador e o motorista.” Pensando nessas duas verdades, lembrei-me da história que ouvi de uma ex-cobradora, hoje chamada com pompa de agente de bordo. Ela me contou que, numa noite de desespero psicológico, voltavam para a garagem depois das várias “caçambadas”. A féria já estava contada e registrada, tudo dentro dos conformes. Ela ligou o radinho de pilha, acendeu um cigarro e, enquanto...

O Banquinho dos Trouxas

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Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência. Quando eu era criança, os ônibus que circulavam pela Grande BH tinham uma tarifação diferenciada por fichas. Eram grandes, de plástico duro, e vinham em três cores — acho que amarela, azul e vermelha. Não lembro bem como funcionava, mas era por distância: de Beagá a Contagem era uma cor, até Betim era outra; para o outro lado, de Belo Horizonte a Santa Luzia, uma cor; de BH a Sabará, outra. Mudando de assunto… Os ônibus tinham um assento solitário logo atrás da porta da frente. Minha mãe chamava aquele assento de “o banquinho dos trouxas”. Segundo ela, em caso de batida frontal, o motorista jogaria o ônibus para o lado do banquinho — e o trouxa é que sofreria as consequências. Pois bem, havia um motorista que chegava cedo ao ponto final do meu bairro. Ele tinha a estranha mania de conversar sozinho. Um solilóquio tão convincente que me dava arrepios: gesticulava, olhava para um lado específico, como se ...

A Conversa que Mudou Tudo

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Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência. Muitas vezes, estar em um desses salões sobre rodas do transporte coletivo urbano é o mesmo que estar em uma roda-viva de conversa aleatória: é instintivo e, ao mesmo tempo, uma terapia. Porém, cada ônibus tem seus personagens. Há os que disputam a janela como quem disputa herança, há os que já acordam resignados a viajar espremidos no corredor, pendurados na alça de mão do teto, e há os que se contentam com qualquer canto, desde que cheguem vivos ao destino. Normalmente, como vou de um final ao outro — PC1 a PC2 — já sei de cor o percurso. Explico: PC1 é onde começa a primeira metade da viagem, a tal caçambada, e termina em PC2. Dá-se uns minutos, e começa a segunda metade, do PC2 de volta ao PC1. É nesse intervalo que se mede quantas pessoas cabem na roleta. Numa viagem lotada, garante o cobrador — ou agente de bordo, como preferem chamar — cabem mais de setecentas almas em uma única caçambada. Quem m...

O Vento e a Linha

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Imagem gerada por inteligência artificial (OpenAI ChatGPT, 2025) Não era um vento qualquer — era daqueles que vinham assobiando pelas esquinas, levantando saias desavisadas, enchendo sacos plásticos de nada (iguais aos pastéis do centro da cidade) e subindo as ladeiras como se tivessem pressa de chegar a lugar nenhum. Era o tipo de vento que só podia dar numa coisa: em pipa. E foi numa tarde dessas, de vento bom e céu limpo, que começou a epopeia de Caíque — oito anos, morador do segundo andar, especialista em pipas de seda e rabiola feita com sacola de supermercado. Ele tinha preparado a obra-prima da temporada: um papagaio com estampa do Homem-Aranha, nome de batismo Aracnóide Voador II — porque o primeiro se enroscou na fiação e foi promovido a mártir. Subiu com um tubão de linha, o orgulho nos olhos, o chinelo quase perdendo o pé. No beiral do prédio, lançou o Aracnóide ao céu. E lá foi ele, desafiando a gravidade e as leis municipais, girando no azul como se voar fosse sua vocação...

UMA MEMORÁVEL VIAGEM DE ÔNIBUS

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Essa é uma obra de ficção.  Qualquer semelhança com fato real  é mera coincidência. Havia comprado minha primeira moto lá em 2006, faz bastante tempo. Entre tombos e aventuras, fui me adaptando ao uso desse meio de transporte urbano prático e mais rápido que os demais. Embora reconheça que seja um pouco mais caro que andar de bicicleta – por razões óbvias. Com o passar dos anos, percebi que muitos dos meus amigos e até meus sobrinhos também se renderam à praticidade da moto, utilizando-a para se deslocarem entre casa e trabalho, entre casa e escola, e em muitas outras ocasiões. No entanto, confesso que, em dias de chuva ou quando minha moto estava passando por manutenção, não hesitava em recorrer ao uso do ônibus. Porém, eu tinha um amigo que nutria um verdadeiro ódio, declarava-se inimigo desse transporte coletivo. Ele alegava que não havia conforto, privacidade ou sequer um momento de paz. Sempre reclamava que alguém tentava ler o título do livro que ele carregava ou ouvir o...

IMPÉRIO DO BARULHO

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Paulo Siuves   Façam barulho. O som reinará. O império do barulho acaba de ser estabelecido e não há como escapar do seu reinado ensurdecedor, não deixem o ruído cessar, provoquem uma sequência de estrondos, não parem de zoar. Suscitem vários estrépitos e que estejam em todas as esquinas de cada bairro, todos os dias e todas as noites, o som deve dominar as ruas, as casas e os espaços públicos. Os hospitais e as salas de reuniões são os únicos lugares que ainda tentam manter o silêncio, mas são constantemente invadidos por barulhentos protestos dos cidadãos que exigem seu direito de fazer barulho em qualquer lugar. O silêncio nunca mais será ouvido. Deixem soltas as crianças nos jardins, elas serão especialmente incentivadas a fazerem o máximo de barulho possível, e os adolescentes nas escolas, que façam o que sabem fazer, berrem, eles sabem berrar, as escolas se tornam verdadeiros campos de treinamento de decibéis. O som das buzinas e apitos são constantes, misturados com as vo...

O Bebê que Interpreta Códigos

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O choro do bebê. A ansiedade do adulto. A falta daquilo que resolve o problema imediatamente naquele cenário caótico de lágrimas, vozes e tarefas outras a cumprir.    Um celular (ou um tablet) a disposição e um canal de desenhos infantis no mais recente sobrepujador de gritos infantis, especialmente dos berros com menos de dois anos de idade, aqueles agudos desesperadores que fazem mamães enlouquecerem pensando que o problema é com elas.    Não, mamãe, o problema não é você, e também, não é o bebê, é com a incapacidade dele de falar, ele não fala, somente chora. Faz grunhidos humanos que precisam ser interpretados, tipo quando tem um visitante estrangeiro em sua casa que não fala nada em português, e você também não domina absolutamente nada da língua materna e única do hóspede, tem que ser na base da interpretação de códigos.    Bebês não apontam para o que querem, não fazem sinais de cabeça, tipo, apontando com o queixo para o objeto de desejo daquele mom...

Sintomas da Maldita Hipocrisia Familiar

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Como é viver de trambiques e armações? Será que a adrenalina sobe e faz o "barato" acontecer como se fosse uma droga juvenil despretensiosa? Não! É uma maneira de ir caminhando e perdendo as pessoas que se ama e que são caras para nós mesmos, digo, para o trambiqueiro. Deus me livre de viver assim, de trapaças! Creio em Deus Pai, Todo Poderoso… Recentemente sofri uma bordoada, tentei fazer uma prova para um concurso público e não fui aprovado. Essa sensação de não ser aprovado é muito ruim, de ser abaixo da média, é uma sensação tão perversa de incompetência de que eu não estudei o suficiente, não me dediquei o suficiente, não insisti o suficiente na preparação para a prova, as questões estavam ali, bem a minha frente e eu não soube as respostas corretas, não sabia quais eram os argumentos verdadeiros que me fariam ser um vencedor na prova do concurso. Eu precisaria dar um jeitinho de ser aprovado, de passar a perna em quem estudou e deixá-los para trás. Epa! Essa não é a mi...

VINHO É VIDA

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  Quando é a hora de parar e a pessoa não percebe, vai repetindo a dose até ficar feio. Na verdade, estava feio desde o início, mas a coisa vai degringolando até não ter mais como alguém ajudar a contornar o problema. Aqui em Minas, algumas pessoas falam que a coisa vai caindo “pirambeira” abaixo até “esborrachar tudo”. Traduzindo: a coisa vai descendo de nível, na escala da falta de bom senso, até chegar num nível tão baixo que não terá como se recuperar naquele assunto. Tive propensão de falar de política, mas vou continuar mantendo minha opinião entre meus amigos mais chegados, não em público. Porque tenho responsabilidade e não vou me furtar desse domínio. Mas posso dizer o que penso sobre algumas pessoas próximas a mim que não param de tentar esgotar a paciência falando sobre política partidária, olho para a pessoa e falo “Sério mesmo que vai ser só esse assunto?” e a pessoa resolve ir plantar seus ventos em outra freguesia. Por mim, tudo bem, gosto de tempos frios, mas não go...